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O PROGRAMA E O CONVITE

O Festival de Música Religiosa de Guimarães 2017, na continuidade do êxito alcançado no ano passado junto da população local e visitante, vem oferecer novamente de uma forma intensa o disfrute da grande música que foi composta ao longo dos séculos sob o signo da religião. Esta música, religiosa na sua essência, embora não necessariamente sacra ou litúrgica, que preenche grande parte dos arquivos musicais de todo o mundo, foi composta no seu tempo à sombra das igrejas e graças ao interesse dos que as visitam ou respeitam. É precisamente o tesouro da grande música religiosa de todos os tempos, que a cidade de Guimarães, reconhecida no mundo pelos seus pergaminhos históricos, e também musicais, se prepara para oferecer, abundantemente e em ambiente de inegável espiritualidade, qual é a Semana Santa, a todos os seus habitantes e forasteiros. Fá-lo na consciência de preencher uma lacuna entre os festivais de música deste país, no qual, pese embora a sua matriz essencialmente cristã, não há um único com a marca exclusiva de um devotamento à grande música religiosa e no tempo espiritual da Semana Santa.
Embora ainda de recursos limitados, conseguiu-se mesmo assim apresentar a divina música numa grande diversidade de estilos e grupos: recitais, cantochão, música coral, música de conjuntos da chamada música antiga e música coral-sinfónica.
Em matéria de recitais, haverá um de órgão com Daniel Ribeiro e um de piano com José Eduardo Martins, que apresentarão respectivamente música para órgão ibérico, com um programa alargado desde Johann Kuhnau a Carlos Seixas, passando por J. S. Bach, e um programa diversificado de música de piano desde o grande barroco (J. Kuhnau), ao romântico (Franz Liszt) e aos contemporâneos (Almeida Prado e Eurico Carrapatoso).
Em segundo lugar, haverá música essencialmente coral: de Santiago de Compostela, o coro de câmara Vox Stellae vem fazer a música das catedrais de Santiago e Tui; da Póvoa de Varzim, o Coral Ensaio vai interpretar a Via Crucis de F. Liszt; o Coral vimaranense Vilancico irá apresentar novamente a música do Passionário Polifónico de Guimarães; finalmente, já no dia da Páscoa, o Orfeão de Guimarães, a celebrar o seu 100º aniversário, fechará o Festival com a Missa Alemã de Franz Schubert, além de outras peças festivas do seu reportório.
No que respeita a conjuntos de música antiga, a Orquestra Barroca da Casa da Música renovará a sua presença neste Festival com o grande barroco italiano e a Orquestra Divino Sospiro representará o barroco hispano-português, com obras significativas de Francisco J. García Fajer e José Joaquim dos Santos.
Já no repertório coral-sinfónico ouvir-se-á a Sinfonia nº 2, Lobgesang, de Felix Mendelssohn Bartholdy com a Orquestra de Guimarães, o Ensemble Vocal Pro-Música e o Coro do Conservatório de Guimarães e a Missa pela Paz, The armed Man, de Karl Jenkins, com a Orquestra e Coro da Universidade do Minho.
A música antiga será servida com abundância, com o curso de iniciação ao canto gregoriano e com a intervenção do Coro Gregoriano Solemnis, de Lisboa, na celebração da Missa da Ceia do Senhor, na quinta-feira santa. Já no capítulo da polifonia clássica, ouvir-se-á música polifónica das catedrais de Santiago e Tui, com o coro Vox Stellae, e a música singular do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, existente nos arquivos da Sociedade Martins Sarmento (Passionário Polifónico de Guimarães), pelo Coro Vilancico. No âmbito da música barroca, teremos a oportunidade de ouvir a Orquestra Barroca da Casa da Música, com o programa barroco de Itália “O Pranto de Maria”, e também a orquestra Divino Sospiro, com um ambicioso programa temático que se quis intitular de Harmonia Ibérica da Paixão, de dois notáveis compositores ibéricos.
Mas é a música romântica que se ouvirá mais música neste Festival: no qual Liszt, o primeiro compositor de música sacra plenamente romântica, se fará ouvir com o seu Via Crucis, pelo Coral Ensaio e as suas duas Lendas Franciscanas, ao piano com José Eduardo Martins, seguido-se F. Schubert, com sua Missa Alemã pelo Orfeão de Guimarães, e finalmente Mendelssohn com a sua Sinfonia nº 2, Lobgesang (Cântico de Louvor), com a Orquestra de Guimarães, o Ensemble Vocal Pro-Musica e o Coro do Conservatório de Guimarães.
Finalmente a música contemporânea estrará presente com a grande Missa pela Paz, “The Armed Man”, de Kar Jenkins, com peças várias de Manuel Faria e outros e com os estudos de música litúrgica de E. Carrapatoso.
Nas circunstâncias presentes, não era possível fazer melhor: deu-se a devida importância a grupos locais (cinco de onze concertos), relevou-se ao máximo a música ibérica (executada por inteiro em três concertos), abriu-se o horizonte para o país (dois concertos por grupos de Lisboa, um por um grupo do Porto e outro por um grupo de Póvoa de Varzim) e para além fronteiras (um de Santiago de Compostela e outro de São Paulo).
Mas a festa da música não é apenas som: ela será alargada à formação das pessoas – curso de Introdução ao Canto Gregoriano, pelos responsáveis do Coro Solemnis de Lisboa, e duas conferencias pelos ilustres professores, Nuno Saldanha e Manuel Pedro Ferreira – e ainda ao culto do gosto e do conhecimento, através da exposição de arte sacra, patente nos Museus e nas Igrejas da cidade.
Num espaço de 9 dias, conseguiu-se concentrar uma grande festa de música religiosa, indo ao encontro do ambiente que caracteriza a Semana Santa e a Páscoa, dentro do tempo de lazer e espiritualidade que marca, velis nolis, o período da Semana Santa. É tempo alargado de distensão, com férias e festas, oportunidade para o passeio e as artes, para a visita às belas igrejas e museus da cidade, a que se junta, em grande plano, a prenda cultural da música.
Fica aqui a oferta a toda a população de Guimarães, cidade e concelho, com o convite sempre gratuito a todos os forasteiros, de Portugal, de Espanha e do resto do mundo. Visitar Guimarães nunca foi tão aliciante como nos dias espiritualmente cheios da Semana Santa e Páscoa, com a programação do seu Festival de Música Religiosa 2017.